PROBLEMÁTICA DAS DROGAS


ONETE RAMOS SANTIAGO_ PSICÓLOGA _ Tel. (48)32242748/ 99828614

A princípio, sou contra certo dizer, pretensamente científico, que
pensa a droga como uma questão de susceptibilidade corporal de certas
pessoas. “A pessoa teria tendência para a droga”_ dizem, como se as pessoas
a tivessem dentro de si. Considero isto, uma passividade. A princípio,
ninguém tem ou deixa de ter tendência para a droga.
O perigo reside em todo um histórico
político-sócio-educacional-econômico-familiar e emocional que, diríamos
começa antes do nascimento do bebê e para o qual os pais e nossos filhos
têm que estar preparados .
Então, formação, educação crítica e reflexiva, diálogo, esclarecimento
racional e objetivo, conscientização tanto para os pais quanto para os
filhos, são os itens primeiros. Verdade, transparência e honestidade na
relação também. Sempre! Desde que o bebê nasce. Senão, na adolescência pode
ficar mais difícil restabelecer certos vínculos que já deveriam estar
atados. Diálogo de conhecimento de causa e com coração, vindo da
sinceridade, da verdade e do insight de cada um _ é a fórmula ideal, pois.
Nada de exageros ou alarmismos. Na adolescência, principalmente, isto é o
primeiro passo para eles trancarem as informações e trocas com os pais,
porque “ o pai e a mãe são uns caretas, acham tudo um horror”. Normalmente,
neste quadro, eles elegem um tio “mais massa”, um pai mais moderno de algum
colega para fazerem as suas trocas já que eles ( adolescentes) ainda estão
muito centrados na família. Eles vão, se fazem de independentes lá fora,
mas, em casa, ainda se infantilizam porque, na realidade, seu referencial
ainda é a família.
Se este referencial é bom, se o adolescente não está
emocionalmente doente ( esta sim é a doença_ a droga é uma doença emocional
e não uma tendência corporal) , o adolescente pode vir a, pela curiosidade
inata de todo adolescente, provar um cigarrinho de maconha ( como os pais
provaram em sua adolescencia uma cervejinha ou cheiraram no carnaval um
lança-perfume), mas, curada a curiosidade, eles, bem orientados e
conscientizados que estão, elegem sua própria opção e pronto. Está provado
que apenas uma minoria de adolescentes desenvolve o vício.
..... Outra coisa: eles ficam muito brabos quando os pais os proibem de
andar com um colega que, por alguma infelicidade, tenha um maior contato com
drogas. Os pai acham que o colega vai colocá-los no mau caminho, que a
“turma vai forçá-los a fazer uso”. Por um lado, é compreensível o medo dos
pais. O ditado: “diz-me com quem andas e dir-te-ei quem és” é válido, mas,
por outro lado, a meninada atual adota a postura : “cada um na sua”, como
eles dizem. Isto é reflexo da sociedade atual mais democrática e pluralista;
pensamentos divergentes andam juntos. Também constato isto; acho positivo
da parte desta meninada este comportamento de respeito. Eles dizem que só
faz uso quem quer; que não há pressão e que, por outro lado, eles até ajudam
o colega que está entrando a sair e isto me reporta mais uma vez ao diálogo
que sempre deva haver entre pais e adolescentes. Diálogo mesmo, não
monólogo. Deixe seu filho falar! Pergunte para ele. Pergunte, com
curiosidade honesta , como estão as coisas no colégio, no barzinho, enfim,
nos locais onde ele frequenta. Porque certas coisas específicas ele sabe
melhor do que você porque ele tem a vivência; ele está dentro; você, por
mais experiente que seja não está dentro. Claro, você tem o suporte básico
da vida, pode e deve ter a experiência geral de um existir de mais anos do
que ele, mas, ele, está lá_ na experiência direta. Então, flexibilize-se.
Fragilize-se. Fale de suas possíveis experiências negativas ( esta geração é
filha da primeira, segunda ou até terceira geração que começou, com mais
frequencia, a usar drogas ( droga é uma coisa antiquíssima no mundo) sem
temer que, se contarem, os “moleques”vão ficar folgados e não vão ter mais
respeito por você. Respeito não é algo que se tenha. Respeito se faz na
relação. Sendo, simplesmente.
Assim, também não há receita pronta para o papo. Use sempre o
felling e o coração.
Alias, tenho escutado que, em nome de um pretenso papo
moderno, o adulto que conversa sobre drogas com jovens deve reconhecer e
concordar, para não parecer careta, que droga causa um estado legal; só que
deveria ser evitada por medo da dependência. Acho isto uma bobagem. Use
você, adulto, seu próprio referencial nas vezes em que bebeu umas
cervejinhas ou uísque demais. Prescrute seus reais sentimentos e veja se
“alto” pela bebida a circular em seu sangue, você se sentiu mesmo legal, se
mesmo com a visão, gestos, comportamentos liberados, você, no fundo, não
permaneceu aquela mesma pessoa, carregando os mesmos problemas existenciais.
É o que eu tenho dito e os jovens entendem e concordam: você está tomado
pela droga ou pela bebida, mas, você não se engana_ no fundo, você está
espiando você e você sabe que você é o mesmo. Você sabe que aquela mesma
pessoinha triste, sozinha, carente está lá - inteira, sem modificação
alguma. Ela olha para você e está com pena deste outro personagem que você
decidiu incorporar_ o personagem solto, moleque, alegre. Mas, você sabe que
não adianta nada. Que é uma farsa. É como se você tivesse num teatro
vivenciando um papel momentâneo de um comédia . Mas, é só um papel. Você é
só o artista. Aquele não é você. Não adianta, jovem!
Mais fácil você enfrentar de frente seus problemas_ vá em busca
do apoio, da retomada de você, mergulhe na pessoinha que você é. Não é
difícil! Hoje, em abordagens mais centradas no Aqui e Agora, com uma visão
mais voltada para técnicas de uma psicoterapia breve e envolvida com o
cliente, consegue-se ótimos resultados em tempo pequeno.
Agora, se seu adolescente acabou se se envolvendo mesmo com
drogas, ele vai precisar muito de seu apoio, companheirismo, autoridade
justa, tudo. Não o ameace com polícia, não o ameace de mandá-lo embora, nada
disso. Ele pode ter caído no problema por carências , vontade de se
enturmar, inseguranças, incapacidade de dizer Não por medo de não ser amado.
Nãos que ele já deveria ter aprendido a dizer, mas, por razões mil, não
aprendeu ainda e vocês vão ter que regredir a uma fase anterior e elaborarem
tudo isto. Pode ser que seja disto que ele esteja precisando_ voltar ao seu
colo; à época em que você tomava decisões por ele. Quando estamos doentes e
encontramos alguém que nos conduza, como é bom, não é? Então, use de sua
condução firme, forte, segura e amiga. Uma condução protetora.
Outra questão que gostaria de trazer diz respeito à abstinência e
ao modo de procedê-la. Se seu adolescente acabou mesmo viciado , ele deverá
passar por um período de abstinência. O adolescente que chegou à dependência
está desestabilizado emocionalmente e fisicamente em suas mais diferentes
formas e precisa ser cuidado. E ele aceita o cuidado, se é respeitado
enquanto doente. Não é porque estamos doentes que devamos perder identidade,
auto-estima ou senso de valor. Cuide-o com respeito.
Esta abstinência deverá ser em casa, preferencialmente,
acompanhada de assistência psicológica para o adolescente e sua família. Os
pais se perguntam: Onde erramos? O que faltou a ele (a) ? Estão também
angustiados, procurando respostas, às vezes, se culpando mutuamente. Não é
hora disto! A hora é de ação construtiva. Em casos muito graves de
dependência, fala-se já hoje em dia em desintoxicação progressiva e
abstinência progressiva. É uma atitude corajosa ! E quem diz que não se
precisa coragem para enfrentar com galhardia os problemas que nos são
apresentados na vida ? Isto é também ação construtiva .
Outro assunto diz respeito às escolas_ as drogas
estão lá também; não é mais o pipoqueiro quem vende nem o traficante “lobo
mau” disfarçado de cordeiro à porta dela. Dentro da escola, há a comunidade
chegada a um baseado que é compartilhado, seja através da venda ou da cessão
que depois é compensada.
Mas, também não adianta mais a escola estar a expulsar os alunos
flagrados com cigarros nas mochilas; a escola, como parte ativa da
comunidade, tem que estar integrada e sintonizada com os problemas
sócio-educacionais e afetivos e investir no esclarecimento, conscientização
e acompanhamento de seus alunos, engajado no mesmo esforço familiar;
importantíssimo.
Não adianta também os pais querer processar a escola, numa postura
clara de transferência_ “a escola é responsável, aquilo é um antro”, ou
transferir o adolescente de colégio_ “aquele colégio não presta, vou tirá-lo
de lá”. Escolas, famílias e sociedade têm é que somar esforços, unidos num
objetivo comum e construtivo de uma sociedade melhor. Os jovens têm que
estar conscientes que a droga que devem priorizar e buscar é a droga de seu
próprio corpo e psique a se movimentar em alegria de vida, energizados pela
força de satisfação e realização pessoal e relacional.
Mas, voltando-me agora para um lado mais objetivo da questão;
importantíssimo também, percebo que muitos pais nem ao menos conhecem as
drogas ou os sintomas do uso delas. Vamos lá! Por exemplo: 1º - mudança de
comportamento no adolescente, 2º- nervosismo e irritabilidade, 3º- o jovem
se torna agressivo, impaciente, ansioso e inquieto, 4º- sintomas de
depressão se instalam_ o jovem se isola em seu quarto, evitando seus pais e
amigos, 5º- as notas escolares despencam e , muitas vezes, ele quer desistir
da escola, 6º- sono excessivo e mudança de horários- o jovem dorme durante o
dia e permanece acordado à noite, 7º- presença de comprimidos, seringas,
cigarros estranhos, colírios, descongestionante nasal, papéis para enrolar a
maconha, 8º- começam a desaparecer objetos e dinheiro ou insistentes pedidos
dele, 9º- aumento do apetite por doces, olhos vermelhos e congestionados,
10º - distúrbios na percepção do tempo e espaço, 11º- boca seca e irritação
das narinas, 12º- palidez acentuada, 13º- dedos manchados e cheiros nas
roupas,14º- restos de chepas de cigarros, septo nasal com pequenas
hemorragias, 15º- pó branco cristalino ( a cocaína) , objetos metálicos em
seus pertences, 16º- ampolas, agulhas, manchas e sangue na roupa, 17º- moral
e censura rebaixada, etc.
A maconha surge como opção predileta por ser mais barata e fácil
de encontrar, numa fase em que os jovens ainda não trabalham e tem pouco
dinheiro no bolso. Mas, não se enganem! Ela vicia também. Vicia e,
normalmente vem antecedida pelo álcool que, afinal, é droga dita legal e
aceita socialmente com todas as hipocrisias que a sociedade traz embutida.
Vejam que, atualmente, os encontros de jovens são feitos em
barzinhos de moda, o que tem dizimado o uso mais acentuado entre eles;
principalmente adolescentes tímidos e inseguros que querem garantir a
conquista e sedução das meninas. O pior é que não garantem; meninas não
gostam de meninos inconvenientes e inconsequentes , movidos a álcool nem a
outras drogas quaisquer.
Constatados os sintomas, procure ter certeza do que está
acontecendo, observe comportamentos, atitudes e tenha uma conversa franca e
sincera com seu filho, sem alarmismos, ameaças de polícia ou internação em
hospitais psiquiátricos . O filme brasileiro “O BICHO DE 7 CABEÇAS” que
conta um caso verídico é excelente para que os pais assistam. Fala de toda a
degradação de um jovem pela covardia do pai e omissão e medo da mãe ( medo
que sente do pai) _ este é outro assunto controverso e cheio de detalhes.
Mas, é preciso distinguir o usuário do dependente. Só pode ser
considerado dependente aquele que já está sofrendo prejuízos por causa do
uso frequente e assíduo, problemas de desvio de comportamento, perda de
interesse por tudo e conflitos intensos com seus familiares.
Pesquisas diversas demonstram uma estreita ligação entre o uso
excessivo de drogas e problemas familiares e consigo mesmo. Permito-me
acrescentar que são jovens assustados e infelizes diante da vida; o uso de
drogas é um meio para se anestesiar, um refúgio onde procura estar mais
armado para enfrentar o mundo. Só que é um caminho desviado em que o jovem
pensa que se protege. O que ele deseja, assim como qualquer ser humano é ser
feliz; só que a droga é um caminho neurótico-compulsivo, como qualquer outro
caminho desviado _ o comer demais, o comprar excessivo, o trabalhar
compulsivo, o sexo sem limites.
A busca do prazer e da diminuição do sofrimento com a droga,
segundo as mesmas pesquisas, muitas vezes é aprendida. Maria Lúcia
Formigone do Departamento de Psicobiologia da Univerdidade federal de São
Paulo (UNIFESP) diz que estudos demonstram que boa parte dos dependentes
apresentam histórico de problemas com drogas na família”. E continua: “
para a criança que vê os pais bebendo por causa de uma dificuldade ou usando
calmantes só para relaxar, fica a idéia de que não há problema em usar
recursos externos para tentar amenizar qualquer tipo de desconforto”. A
influência do ambiente também fica clara quando foi analisada a ocorrência
de traumas na infância. Entre os dependentes graves, houve maior incidência
de casos de abuso sexual, morte de um dos pais ou separação do casal. É
claro que não é porque os pais se divorciaram que os jovens acabam por usar
drogas, continua a pesquisadora . “ Muitas casais se separam e conseguem
educar os filhos de forma bastante saudável ”. O que ela ressalta é a
conjugação de todos estes fatores reunidos que podem provocar
desestruturação familiar, esta sim, grande colaboradora do aparecimento do
problema do abuso de drogas.
Na dependência grave, o jovem perde os últimos limites da moral e da
censura. Precisando cada vez mais de droga no corpo, aparece o problema do
roubo externo, da prostituição, assaltos em sinaleiras ou nas ruas, onde o
viciado pega tudo o que for possível para vender a preço irrisório- tênis,
óculos, relógios, etc., do homicídio. De cada 10 chacinas cometidas na
Grande São Paulo, 4 tiveram como motivação o consumo ou tráfico de
entorpecentes. Cocaína e crack eram as drogas mais pesadas, nestes casos.
Também quanto ao problema do suicídio, o psiquiatra Flávio Neves,
professor da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa (S.P.), menciona 2
estudos, segundo os quais 36% dos suicidas que chegaram ao Instituto
Médico-Legal de São Paulo, haviam ingerido álcool e 20% dos suicidas
americanos haviam consumido cocaína antes de se matarem. O mesmo professor
acrescenta que o estudo não mostra as características das pessoas envolvidas
, mas, não resta dúvida que a droga dá a coragem necessária para o ato.
Outro assunto que merece enfoque é o desconhecimento e a falta de
comunicação dos pais com outros pais e mães no assunto drogas. Os jovens
fazem uma espécie de clubinho_ eles se protegem, não contam os problemas da
turma para os pais, “ é careta”. Há um código de honra entre os jovens de
não violar “os segredinhos em comum”. Faz parte, diria, mas, os pais também
deveriam conversar mais entre si, em associações de pais; deveriam fazer o
mesmo que os jovens fazem_ ter o conluio com outros pais no trato das suas
dúvidas e problemas. Mas, não! Os pais tendem a negar os problemas e a se
proteger não querendo vê-los. Claro! Filhos para os pais são perfeitos, são
sempre bebês e inocentes e é duro vencer a dor de uma imagem idealizada
tanto do filho como sua. Fica mais fácil atribuir os problemas (quaisquer)
do filho às más companhias, à escola ou ao temperamento do jovem.
Na questão das drogas então, quando a família percebe há uma
verdadeira guerra de apontar culpados em vez de procurar a solução. “Admitir
que o filho apresenta alguma dependência química é um processo muito
doloroso”_ afirma Sandra Schivoletto, integrante do Grupo Interdisciplinar
de Estudos de Álcool e Drogas (GREA) de São Paulo. Realmente! Reconhecer a
questão é, para os pais , se deparar também com a responsabilidade sobre a
situação dos filhos. Daí a tentativa de projetar culpas em cima dos outros.
É difícil, mas o ideal é que os pais não se sintam culpados ( ou afastem
momentaneamente este problema) e busquem uma solução para o caso. Para isto,
na maior parte das vezes, é necessário procurar ajuda de um profissional
especializado com quem os ajustes para o enfrentamento do caso são revistos
e tomados.
Tem famílias que ao desconfiarem do problema, chamam o filho,
mantêm uma conversa e “esquecem” o assunto. Cuidado! A maioria dos casos
chega aos pais quando o consumo de drogas já tem mais de um ano. Também não
adianta arrumar um profissional para o filho e se desligar do problema. É
toda a família trabalhando a dinâmica, somando esforços par a solução.
Enquanto se soluciona, vai –se sanando as dificuldades na relação
familiar. São revistas a qualidade desta relação, os vínculos de afeto, de
diálogo, de franqueza, honestidade e coerência da relação.
Também, no contraponto, é necessário que se diga, regras e limites
pouco definidos dão ao jovem uma sensação de abandono. A família precisa
pesar aqui, quais as falhas de privação e quais falhas de excesso estão
instaladas na dinâmica familiar. Há famílias permissivas ao extremo, e
ausentes. A permissividade total é o subtexto da omissão. É preciso dosar as
coisas. É como gosto de afirmar: No centro, está a razão. É o bom senso que
deve imperar.


Outro assunto é a questão das músicas que louvam o uso de drogas,
alegando que a livre manifestação do pensamento tem que ser garantida. Fico
pensando na força da Psicologia de Massa _ grande número de jovens reunidos,
som a mil, luzes, flashes e a mensagem ecoando. Entendo como perigo. Há a
imagem do transe hipnótico, do extase, da influencia do ídolo musical, da
personalidade do adolescente ainda em formação. A adolescência é a época em
que o adolescente constrói seus conceitos sociais, ele está se
descentralizando da família, seu primeiro referencial, para adotar outros
referenciais externos_ o grupo de amigos, os valores da comunidade e, se o
primeiro referencial já foi falho ou, mesmo que perfeito, num caso e noutro,
é importante que outros referenciais desta fase não intensifiquem ou
estraguem conceitos já colocados na cabecinha juvenil.
O verdadeiro êxtase não é o êxtase de estranhos estados de
consciência, visões ou vozes (Karen Armstrong) , mas sim, de um estado de
alegria interior agregada à própria vida da pessoa. É importante que se
entenda isto.
Ninguém se torna dependente de tal ou tal droga, mas, da dopamina e
serotonina que são os transmissores da sensação de tranquilidade, paz e
felicidade; mas isto não se consegue com drogas, mas sim, com uma vida bem
vivida em que se busque não estar frustrado nem decepcionado consigo mesmo
em suas ações sobre o mundo_ uma sensação corporal de felicidade advinda de
um corpo com sentido pela existência.
Na busca neurótica e enganosa da felicidade, as drogas acabam se
sequenciando umas às outras na rotina do jovem. O álcool, atualmente, é a
porta de entrada para drogas mais pesadas. ( Os adolescentes estão bebendo
muito_ os encontros, hoje em dia, são em danceterias e barzinhos _ o que
faz aumentar o consumo de álcool entre jovens _ já vimos isto. ) Depois,
vem a maconha, cocaína, crack, tudo alternado, funcionando num círculo
vicioso para tentar manter o equilíbrio. A cocaína estimula, o álcool faz
dormir, a maconha dá fome. Para controlar os efeitos, o jovem passa de uma
para a outra. Mas, no fundo, todos buscam a auto- afirmação, a necessidade
de se sentirem aceitos por seu grupo social, a vontade de se mostrar, de
certa forma, corajoso, segundo certos conceitos juvenis, por estar
praticando algo que é proibido.
Num depoimento, um garoto falava que estava na turma não por
dependência, mas, por envolvimento. O jovem quer estar integrado; a “ turma”
passa a constituir um grupo com valores, afetos, apegos. A turma passa a
ser a “família”. Sair dali implica em certas perdas, há uma certa
identificação ali, um certo ninho.
Também num outro depoimento, uma jovem falava de sua mãe
assustada: “Não adianta chegar para os pais e contar que te ofereceram
drogas. Você pode até ter a liberdade, mas acho que a família tem que estar
preparada para receber isso. Se eu falar para minha mãe que experimentei
maconha, ela vai dizer: “que coisa feia, que absurdo’’. Então, não vou
contar mais nada e perder a coragem de falar de camisinha ou outro assunto
delicado”. Percebem! É a necessidade dos pais em abrir o diálogo e se
instruírem mais sobre a questão, como já falamos também. Dos pais não serem
sempre os “caretões” e estarem mais engajados no princípio de realidade _
vendo-a e lutando com seus filhos para modificar aquilo que não está legal.
Também uma outra verdade é a constatação de que as meninas acabam
entrando no uso, numa grande maioria, ou até no tráfico ( nos casos mais
graves) , por influência de namorados, maridos ou amantes. É a velha questão
da mulher não saber dizer não para seu amado. Medo de ser rejeitada, de não
ser amada ou abandonada no afeto do outro_ mil questões que afetam mais de
perto o universo e a psicologia femininos. Mas, esta é outra questão.
Um último item_ sabe-se que de cada 100 dependentes de álcool,
cocaína ou opióides, a metade (50%) conseguem parar totalmente; os outros 50
tem recaídas e recomeçam o tratamento. Porisso, fala-se bastante hoje em
conscientização para o vício. É preciso estar vigilante. Existe recuperação_
cura não existe_ como para muita coisa, pois, assim como qualquer compulsão
( comer demais, comprar demais, sexo compulsivo, etc), o vício da droga tem
raízes em nossa “criança em falta” que se compensa de suas angústias, faltas
e ansiedades numa “ mamadeira de criança grande”.

copyright© 2006, Sílvia Ferreira